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    Escrito por Danielle Jardim
    Postado em 16 de Março de 2017, na categoria Entrevistas

    Sempre tem aquele segmento que a gente sabe menos, bem pouco e aquele que a gente ama falar, ou tem vontade de saber mais sobre e assim é quando o assunto é a sustentabilidade no Turismo.

    Um tema tão importante, mas que ganha apenas pequenos papéis nas empresas, nos trabalhos acadêmicos e em nossa carreira. E já faz tempo que procuro alguém que entenda e consiga falar sobre dele de uma maneira leve para gente. Foi então que, por acaso, conheci o trabalho da Ana Duék, através do LinkedIN e percebi que ela é a pessoa certa para conversar sobre o assunto. A Ana também tem um site, o Viajar Verde, onde todas as suas colaboradoras são turismólogas e quando o assunto é “Turismo Sustentável” elas nos representam muito bem!

    COMO TUDO COMEÇOU

    Me identifiquei muito com as questões que envolvem a sustentabilidade no turismo durante meu mestrado, em 2010. Apesar de já trabalhar com comunicação para o turismo há muitos anos, esta foi realmente a primeira vez que comecei a pensar e olhar para o setor de outra maneira e quando aquela linda imagem de uma atividade dos sonhos se rompeu. Continuei acompanhando a movimentação do turismo nacional, sempre muito preocupado com números, e o boom dos blogs de viagens. Por outro lado, lá fora, via crescer a preocupação com o turismo responsável. Na época, início de 2015, fazia assessoria de imprensa para o Turismo da Nova Zelândia e senti contrastes. Aqui no Brasil, não via nem imprensa nem blogs falando no assunto. Foi quando comecei a pensar que poderia abrir um espaço para que iniciativas de boas práticas, que valorizassem culturas locais, comunidades e a preservação do meio ambiente, fossem destacadas e servissem como exemplos para que viajantes e empresários possam fazer melhores escolhas em suas viagens. Assim surgiu o Viajar Verde.

    Por falar no Mestrado, ela cursou Gestão de Turismo e Hospitalidade na Middlesex University, em Londres que tinha uma matéria específica sobre o tema, onde o “assunto aparecia frequentemente em outras matérias, principalmente no módulo de Questões Contemporâneas, que discutia diversas questões sobre aspectos e impactos do turismo no mundo. Como tínhamos pessoas de diversos países em sala (México, Índia, Nigéria, Rússia, Nepal, China, etc) era uma oportunidade incrível para conhecer um pouco mais sobre alguns dos desafios e características do turismo nesses países.”

    PORQUE É DÍFICIL A COMUNICAÇÃO DAS EMPRESAS COM SEUS CLIENTES SOBRE SUSTENTABILIDADE?

    Acho que ainda existem muitos mitos em relação à sustentabilidade em geral e no turismo não é diferente. Eles estão principalmente ligados a questões econômicas e de conhecimento. A grande questão para os empresários, em geral, sempre foi “vale à pena financeiramente investir em práticas de sustentabilidade”? Desde que essas práticas começaram a ser adotadas pelas empresas sempre houve uma divisão muito clara entre as poucas que realmente acreditavam no impacto positivo que estavam causando e as que estavam preocupadas com sua imagem. Aconteceu o que chamamos de greenwashing, com muitas empresas se dizendo sustentáveis apenas como estratégia de marketing.
    Também ainda há muita gente que pensa que sustentabilidade está ligada somente a questões ambientais, ou que envolve serviços mais caros, ou, no caso do turismo, que só funciona para atividades na natureza. O histórico ajudou a tirar a credibilidade do termo sustentabilidade, tanto para os consumidores, quanto para empresas. Entendo que esses sejam alguns dos fatores que tenham deixado a comunicação do tema confusa ou inexistente. Hoje, pesquisas indicam que viajantes optariam por hotéis ou operadoras responsáveis se tivessem mais informação disponível. Por outro lado, também indicam que menos da metade das empresas que de fato praticam sustentabilidade comunicam isso em seu website ou material de divulgação.

    Há ainda o desafio de encontrar os canais e o tom certo para falar sobre turismo sustentável com cada público. Ainda estamos formando o público viajante familiarizado com o assunto, mas acredito muito que os jovens de hoje têm um enorme potencial.

    6 DICAS PARA VOCÊ SE COMUNICAR MELHOR COM SEUS CLIENTES:

    1) Sua empresa pratica sustentabilidade? A primeira questão é olhar para dentro da empresa e pensar se você realmente está trabalhando com práticas de sustentabilidade. Se você tem um hotel e a única coisa que faz é um programa de reuso de toalhas e ainda assim meio mal feito, então você precisa primeiro trabalhar na implementação de uma política de sustentabilidade. Pesquise ou contrate um consultor. Não podemos comunicar se não há nada a ser comunicado.
    2) Quem é o seu público? Se você já trabalha com algumas boas práticas, olhe então para o seu público. Você o conhece bem? Faça uma pesquisa, se possível. Talvez você esteja assumindo erroneamente que não estão interessados em boas práticas. O que mais interessa a eles? Do que eles gostam?
    3) Eduque seus clientes aos poucos. Não adianta querer transformar o seu público da noite para o dia. Realmente você não vai vender. Mas é possível ir educando e incluindo algumas novidades e até comportamentos no gosto pessoal de cada um. Talvez os baby-boomers (nascidos entre 1943 e 1960) sejam mais difíceis de alcançar, mas há sempre uma esperança. Comece então pelo que eles realmente gostam e, a partir daí, vá mostrando também um pouco das iniciativas interessantes que você faz
    4) Boas práticas envolvem histórias. Histórias que você pode contar as seus clientes de uma forma divertida, curiosa, diferente, apaixonante, envolvente. É isso que as pessoas buscam hoje nas viagens e que fazem elas buscarem um destino e não outro, uma experiência e não outra. Vá a fundo nas suas histórias e compartilhe com seus clientes. Quem é a família que você está ajudando? Quem é a camareira que trabalha no seu hotel? De onde vem o peixe que vocês servem todo dia? Como vocês construíram o sistema para captação de água de chuva? Quem são as pessoas envolvidas nos seus roteiros? Seja criativo e peça a todos dentro da empresa para te ajudarem a identificar histórias também
    5) Encontre os canais certos. Depois de feito um levantamento do seu público, você terá uma ideia dos canais de comunicação que vão funcionar com eles – imprensa, blogs, Facebook, Instagram, email marketing, website, YouTube, propaganda tradicional… Pense que você pode comunicar suas histórias de formas diferentes em cada canal.
    6) Crie uma campanha. Estamos no Ano Internacional do Turismo Sustentável para o Desenvolvimento. É uma ótima oportunidade para você criar uma campanha bem criativa que envolva clientes e/ou colaboradores com o tema. Lembrando sempre que não adianta fazer algo só por marketing. Isso pode ser um tiro no pé. Mas algo que realmente gere um impacto positivo (mesmo que pequeno) para alguém, alguma organização, algum destino. Assim você fortalece sua marca junto ao turismo consciente.

    Arraial do Cabo anunciou este ano que, assim como Noronha, cobrará taxas de turistas na região e pedimos para Ana dar a sua opinião em relação ao assunto:

    Sou a favor de que sempre se esteja repensando o turismo nos diferentes destinos e fico feliz que isso esteja acontecendo inclusive no Brasil. Cada destino tem uma característica muito diferente e é difícil dizer exatamente qual a ferramenta ou solução ideal para aquele lugar assim à distância. Estive em Arraial do Cabo em janeiro deste ano e é realmente preocupante o volume de visitantes e a falta de controle em um lugar com uma natureza que ainda resiste bravamente.

    Taxas e preços altos, dependendo do caso, representam exclusão, claro. E sabemos que é isso que acontece em Noronha, por exemplo. Mas se pensarmos que, de acordo com os princípios do turismo sustentável, ele deve ser benéfico tanto para viajantes, quando para a comunidade local, precisamos pensar então o quanto ele está fazendo bem aos anfitriões. Acredito que uma política de controle de visitação atrelada a taxas simbólicas, como ocorre nos Parques Nacionais, por exemplo, pode ser uma solução eficiente para muitos destinos. Se bem geridas, as taxas podem ser reinvestidas na preservação do local. No mais, acho que a grande contribuição que governos, gestores e pensadores do turismo podem dar, é trabalhar com outros destinos. Temos aí o Parque Nacional da Serra da Capivara, por exemplo, e tantos outros destinos incríveis no interior do Brasil esperando para serem descobertos!

    EMPRESAS TURÍSTICAS COM PRÁTICAS SUSTENTÁVEIS NO BRASIL

    Aqui no Brasil posso citar os hotéis fazenda Parque dos Sonhos e Campo dos Sonhos, em Socorro (SP), que, em primeiro lugar, mostram na prática tudo o que eles prometem em relação a sustentabilidade e acessibilidade. Há diversas placas nos hotéis com leitura em braile e, no website, você pode conferir todas as atividades com as respectivas condições para pessoas com deficiência. Eles participam e são vencedores de diversos prêmios e sabem utilizar isso para alcançar também os clientes através da imprensa.
    Outro case interessante é do Maraca Hostel, no Rio de Janeiro. Ainda não tive a oportunidade de conhecer de perto, mas sei que eles aproveitaram a temática do futebol para fazer toda a comunicação interna no hostel com os clientes. Eles colocam, por exemplo, plaquinhas de cartões vermelho e amarelo para chamar a atenção dos hóspedes para a economia de água. O site conta a história das pessoas por trás do albergue, deixando a relação com o hóspede mais pessoal, e destaca as práticas de sustentabilidade.

    Há ainda a Accor Hotels, com o programa de sustentabilidade da rede, Planet 21. Além do programa ser incrível e muito bem amarrado, a ponto de envolver desde o cliente até os trabalhadores dos hotéis, eles fazem um trabalho de apresentar o programa em vídeos nos hotéis, colocar o selo do programa nas comunicações nos quartos e divulgar exaustivamente na imprensa.

    Além de do site, a Ana também atende às empresas que buscam se comunicar melhor com seu target quanto a sustentabilidade e ela contou uma pouco deste trabalho e de como tudo começou.Tem muito empresa turística que possui atividades sustentáveis no seu dia a dia, mas possuem dificuldades de passa-las para o seu público, então pedi para Ana contar também um pouco sobre como funciona o seu trabalho como consultora das empresas que a procuram, querendo se comunicar melhor com seus clientes, olha só:

    O primeiro passo é conversar e entender exatamente quais são as necessidades, a cultura e objetivos da empresa com a comunicação. A partir daí precisamos avaliar se já conhecem seu (s) público (s) potencial (is). Caso contrário, ajudamos a identificar os públicos específicos em parceria com a empresa. Isso é essencial para entendermos quais os canais de comunicação prioritários e traçarmos um planejamento de comunicação. Algumas empresas já me procuram com um foco específico – em busca somente de gestão de mídias sociais, conteúdo ou assessoria de imprensa. Mas, sempre procuro olhar para a comunicação da empresa como um todo e, no que for possível, sugerir ideias.
    No caso do turismo sustentável especificamente, tenho visto muitas empresas se perguntarem “como eu vendo turismo sustentável?”. A pergunta faz todo sentido já que o público interessado em práticas de sustentabilidade ao viajar ainda é reduzido e está se formando. Mas cabe a nós educá-lo, mostrando que o os grandes benefícios, as deliciosas histórias e as incríveis experiências que são resultado da gestão responsável. Meu papel é ajudar a empresa a encontrar e contar essas histórias de forma criativa e especial e ainda identificar novos canais e espaços para contá-las, incluindo prêmios, eventos, blogs, imprensa, newsletters, etc.

    Aposto que você se interessou ainda mais pelo assunto, né? Então já pode salvar o www.viajarverde.com.br nos seus favoritos, assim como nós fizemos <3

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